Américo Rodrigues

AS POÉTICAS DA VOZ

Performance

No início era a própria respiração. No início não era o verbo, era a respiração, o vento que circulava dentro dos corpos, o sopro mágico. No início, era, então, o ar. O ar que mantinha o corpo, um corpo feito de ar e sangue. O ar é como o sangue, os dois essenciais. O ar é poético porque é invisível. A poesia é o indizível. Depois veio a voz, sopro feito voz, voz que chora e que ri, que dança, que inquieta, que é remoinho. Vozes que vozeiam, que respiram. Não há uma voz igual, todas diferentes, todas feitas de pedacinhos do ser. Dentro da voz, o mundo de cada um, as emoções. Tudo está inscrito na matriz da voz. A voz, prodigiosa descoberta, antes do fogo e do fogo que há na voz, logo a seguir ao primeiro momento do homem sobre a terra.


Américo Rodrigues Nasceu em 1961 na Guarda. Licenciado em Língua e Cultura Portuguesa (ramo científico) pela Universidade da Beira Interior e Mestre em Ciências da Fala pela Universidade de Aveiro. É director do Teatro Municipal da Guarda, desde a sua abertura. Animador, programador, autor, actor, encenador, formador e performer.