João Barrento

A PALAVRA DA POESIA

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Intervenção centrada na problemática do leve e do pesado na linguagem, em particular no campo da poesia, parte da tese da não‐oposição entre peso e leveza, vistos como uma manifestação do aparente paradoxo de um «dualismo monista», fundado na atracção do «semelhante pelo semelhante» (Parménides), numa dialéctica dos «opostos sensíveis» ou de uma «alteridade complementar», uma tensão que parece estar sempre presente no acto de criação. Numa abordagem deliberadamente convencional da linguagem poética, perspectivada em função da dualidade peso‐leveza, e em plena consciência do carácter oscilante (quase sempre metafórico, no uso comum) que informa qualquer dos termos, assumo o ponto de vista dos cépticos sem certezas, mas abertos à busca de pensamentos instáveis e – espera‐se – produtivos. O que me move não é tanto o peso ou a leveza do real ou do Ser (que não poderão deixar de se perfilar no horizonte), nem sequer da criação artística em geral (que será referência da minha demanda particular), mas antes a densidade leve, ou a leveza densa, da palavra «daqueles que adensam a palavra» – que é a tradução literal do nome do «poeta» numa língua como o alemão, e que aqui me serve melhor. E tomo como base de reflexão e análise, fio condutor apoiado pela filosofia da linguagem e pela teoria poética, um poema de Hölderlin («Como em dia de festa…») cuja versão portuguesa, só por si, me permitirá sustentar as ideias que pretendo transmitir a propósito do peso e da leveza na criação poética, escrita e dita – porque o texto dito (mormente num encontro intitulado «Conversas…»), é impulsionado por uma energia muito própria, que confere desde logo peso ao signo, libertando‐o, por outro lado, do peso (morto, afirmam alguns) da palavra fixada na escrita (ou da «coisa mental» do pensamento), para lhe conferir uma outra leveza, para lhe dar asas que não são necessariamente as da palavra efémera. E assim se contradiz o dito latino do «Scripta manent, verba volant». Porque aqui, no poema escrito e dito que nasce do corpo para ir habitar outras regiões, a palavra é voz, e a escrita dos que «adensam a palavra» e a elevam a potências tantas vezes inimagináveis, trabalha com a matéria leve das imagens e das Figuras, para fazer da palavra poética, que tem corpo concreto e é sempre presente, matéria etérea e futurante.

João Barrento, Ensaísta e tradutor. Professor (aposentado) de Literatura Alemã e Comparada da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Publicou quinze livros de ensaio, e traduziu literatura de língua alemã do século XVII à actualidade. Recebe inúmeros prémios de tradução (poesia ensaio e científica e técnica), ensaio e crónica, desde 1979. Recebeu a Cruz de Mérito Alemã (1991) e a Medalha Goethe (1998).